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09 março 2014

UM SÁBADO NO CAIS DA PEDRA

Um restaurante não define necessariamente o Chef que está à sua frente, como um chefe também não define o restaurante. Sobretudo quando esta arte se transforma num negócio, em números, receitas (financeiras) e notoriedade.

Não sou ingénuo ao ponto de pensar que alguém se mete numa aventura destas apenas motivado pela paixão pelo mundo da comida. Mas eu sempre fui da opinião que ter um restaurante é como viver um amor. Nenhum deles se pode partilhar ou dividir. Requerem trabalho, atenção permanente e exclusividade absoluta. A não ser assim obtém-se a receita do desastre.

É o que acontece com o Cais da Pedra. Não é que a comida seja má, que os empregados sejam antipáticos ou que o espaço seja desagradável. Antes pelo contrário. A comida não é má, os empregados não são antipáticos, e o espaço não é desagradável. Mas não vai além disso,  e para mim não chega. Para mim é preciso sair a pensar que a comida é óptima, o serviço é maravilhoso e o espaço é deslumbrante. A pensar que, apesar de ter acabado, valeu a pena viver esse momento.

Do que falo não é de uma comida necessariamente inovadora ou complexa, não falo de um serviço profissionalmente correcto, ou de um espaço de cortar a respiração. Falo de um lugar onde me sinta em casa. Onde perceba que as pessoas que lá trabalham se preocupam verdadeiramente conosco, com o nosso bem estar. Que estão contentes de lá estar, orgulhosas do que têm, e com um sentimento de que aquilo também é deles. E isso não é fácil de conseguir. É preciso, acima de tudo, haver amor. E como diria o sabedor JP: "para haver amor, não pode haver obrigação!".

Aqui não acontece nada disso. É a despachar. E, excluindo as famosas casas de fast food, as cantinas ou os refeitórios de self service, onde a ideia é mesmo essa, um restaurante, como um amor, não pode ser a despachar. Senão não resulta. E para mim, este não resulta.

Tenho pena, porque o Chef é bom, o conceito, a qualidade e as ideias também. Mas falta o ingrediente principal: amor e dedicação. Às pessoas, não às mais valias.


11 maio 2010

La Hora Española - Que Viva España!


Ontem fui ver um espectáculo no âmbito do Festival Internacional de Marionetas, que decorre actualmente no Museu da Marioneta, na Rua da Esperança, em Lisboa.

Quando cheguei, reparei que ainda tinha à volta de quarenta minutos antes de começar o espectáculo. Como era quase hora de jantar, resolvi dar uma volta pelo bairro (da Madragoa) e dei de caras com um lugar simpático, de que já tinha ouvido falar, mas ao qual provavelmente nunca me lembraria de ir de propósito, sobretudo sozinho. Um lugar de tapas chamado "La hora Española".

O espaço é grande, respirado, com tectos altos, em arco, aproveitando uma cave, ao nível da rua, de um prédio na Rua Marquês de Abrantes, típico destes prédios antigos de Lisboa. Um pé direito gigante, com posters e fotos de flamenco e de España por todo o lado. Musica: Flamenco, el Camarón de la Isla, sempre igual a si próprio (whatever that means).

O rapaz que estava a atender era Espanhol. Começamos logo bem. Eu sou mitad espanhole e por isso acabo por me sentir em casa, não tanto pela comida, mas pela língua e forma de estar, E sinto-me bem. Comecei a falar português. Mas rapidamente cedi ao meu hermano.

Tinha alguma fome. O problema é que estes lugares de tapas não são apropriados para uma pessoa só porque, por muito que se queira, não se consegue tirar partido do tipo de pratos que nos servem. Um lugar de tapas é ideal para ir com um mínimo de 4 ou 5 pessoas, pedir uma quantidade anormal de pratos diferentes e partilhar tudo. Não foi o que aconteceu. Ia sozinho e por isso não tive esse prazer(adicional).

E digo isto porque aquilo que comi estava "muie buenio". Uma tortilha com presunto, uma tapa de queijo manchego curado, maravilhoso, e uma outra tapa de salsichão e queijo, igualmente maravilhosa.

A minha estadia foi em corrida, com muita pena, mas as marionetas esperavam.

Valeu, principalmente, porque me abriu a porta para lá ir de propósito, o que farei com certeza, desta vez preparado e acompanhado de um "possy" para derrumbar todas as alternativas possíveis d'etapas.

Enhorabuena y hasta pronto!

Calçada Marquês de Abrantes, 58/60 – Santos
Informações e reservas Tel. 963150482

27 abril 2010

Restaurante Fenicios - O Libano em Lisboa


Sim, Líbano is in town. Finalmente.

Já várias vezes tive esta conversa. Não há restaurantes libaneses em Lisboa. E, para quem gosta deste tipo de comida, ter que ir ao estrangeiro para almoçar ou jantar num libanês, vivendo em Lisboa, que tem cada vez mais de tudo, começava a tornar-se chato.

Não sei se abriu há muito tempo, mas eu só ouvi falar dele na semana passada, e fiquei curioso. A primeira impressão, por puro preconceito, embora justificado, é que seria mais um destes pseudo-restaurantes com a mania que inventam umas coisas que viram na televisão e depois dizem que é libanês, etc... Mas ao telefone, quando percebi que o dono era de facto um nativo, o que foi confirmado pela Time Out desta semana, comecei a ficar verdadeiramente expectante.

O ambiente não é "chique", nem pretensioso. É uma "casa caseira", em que somos recebidos pelo dono e uma ajudante muito simpáticos. "Benvindo" é a palavra mais usada (por ele).

Todos os pratos são originais, locais, genuínos. Comemos Hoummos e Warak Ènab, de entrada; Depois Kebbé Maklieh de prato principal. Estava tudo uma verdadeira delicia.

Mas a maior surpresa da tarde foi a sobremesa. Há muito tempo que não comia uma sobremesa assim. Foi sem dúvida a melhor, mais original e diferente, e ainda mais saborosa sobremesa que tenho comido nos últimos tempos (leia-se anos). Não consigo reproduzir o nome, mas é uma aletria com flor de laranjeira e pistacchio, que sabem a nuvens brancas e céu.

Com entrada, prato, sobremesa e bebidas não chegou aos 15 euros por pessoa.

Estou maravilhado. Talvez seja por ignorância, mas não conhecia nenhum libanês em Lisboa, e fiquei encantado. É bom encontrar coisas simples que saem bem.

Contactos:
Rua do Conde Redondo, 141-A
LISBOA
Tel: +(351)212448703
feniciosrestaurante@gmail.com
Segundas a Sábados
12h-15h30, 19h-24h
Encerra aos DOMINGOS

06 janeiro 2010

IBO - É bom lá voltar


2009 não podia ter terminado de melhor forma, no que diz respeito a novas experiências gastronómicas.

IBO é um a ilha no meio do arquipélago das Quirimbas, a norte de Moçambique, na região de Pemba. Estive lá na minha lua de mel há uns anos. Um verdadeiro paraíso, que agora temos o prazer de receber, noutro formato, em Lisboa, ao Cais do Sodré.

Fui lá parar por acaso, a convite de almoço de um cliente. Já conhecia o restaurante de nome e porque conheço o chef há muitos anos (não nessa qualidade). Mas nunca, por uma razão ou outra, tinha manejado lá ir. Houve uma vez que estive mesmo à porta, mas os meus acompanhantes decidiram, à última, trocar-me as voltas.

Admito que tenho um fraco (ou mais um forte) por Moçambique, o que não quer dizer que esteja condicionado à partida. Ou por outra, quer mesmo dizer que estou condicionado porque me torno mais exigente. Um restaurante que desilude já é triste, mas um restaurante que se usa de costumes de um povo, de uma terra, para atraír e não se esforça para, pelo mens, ter alguma coisa a ver, é pior. E vê-se logo quando uma pessoa não sabe o que está a fazer.

Pois bem, este não é, definitivamente, o caso do IBO.

Entro no restaurante e sou logo recebido por um empregado bem vestido, de preto, com um sorriso na boca e a querer saber o que me traz àquelas paragens. Pergunta-me se quero beber alguma coisa e gesticula como a querer ajudar-me a tirar o casaco. Tudo é limpo e bem posto aqui. Os tons de branco que caraterizam, mas não limitam, o espaço, dão-lhe um ar fresco e ao mesmo acolhedor. A temperatura está perfeita, nem calor nem frio. Foi como chegar a casa.

Sou conduzido ao primeiro andar onde me encontro noutra sala igualmente agradável com a mesa já à nossa espera. Mal nos sentamos somos logo acarinhados com uma selecção de pães e respectivos acompanhamentos que deixam logo antecipar a qualidade, simples (e não quero dizer fácil), sem pretenciosismos, e muito eficaz.

A lista é preparada com o cuidado de ligar os pratos ao país de origem, com vários fixos, incluindo os conhecidos camarões tigre, seja na grelha,seja à Laurentina, seja em caril. Há também pratos de carne muito apetecíveis, dos quais destaco o borrego, porque o vi mais tarde a chegar à mesa com um aspecto "de se comer" (literalmente falando)! Passando às sobremesas, tivemos direito a um "sortido" por isso deu para fazer uma geral. Maravilhosas! bolo de chocolate, papaia recheada, sorbet de limão ou leite creme com açúcar queimado na hora, entre outras delicias...

Os timings de atendimento e intervenção à mesa foram daqueles que eu gosto. Sem grande alarido, passámos o almoço sem ser incomodados mas sempre com a sensação de estarmos acompanhados quando precisámos. É esse o objectivo que, na minha opinião, um bom empregado deve ter: estar presente sem incomodar, sem se sentir como uma sombra.

Gostei muito do pormenor dos pousa malas para as senhoras. Belo toque!

Enfim, recomendo uma ida ao IBO, ou mais. Vão notar que quem lá está, está por gosto. E quando é assim, aliado à sensibilidade culinária, não há como falhar.

Contactos e localização em: http://www.ibo-restaurante.pt/

25 dezembro 2009

Xico's (põe-te) Fininho


Começo hoje um novo capítulo, de critica.

Estas coisas funcionam como um vírus, um bicho que está em hibernação ou incubação durante um tempo e que, a certo ponto, e por outra causa qualquer, resolve passar ao activo. Há como que um rastilho que é aceso, e que já não é possível apagar. E o vírus manifesta-se. Em força.

É isso que me traz a estas linhas. Gosto de culinária e gastronomia . Gosto de conhecer lugares novos, ideias novas e sabores novos. Mas também não gosto quando crio uma expectativa sobre um qualquer mito, um lugar ou um sabor,e depois sou traído pela crua e dura realidade. E foi isto que me aconteceu há dias, e que fez com que o vírus se manifestasse.

Tudo começou mal. No próprio do Jardim do TABACO, não havia trocos para o dito... Nem o Xico, aparentemente, tinha, nem os demais queriam dar. Os trocos pareciam ter desaparecido da face da terra. Até o homem da casinhota de tickets do parque não tinha. Nos dois ou três lugares que havia abertos, olhavam-me com cara de estranheza, quase "agressivódefensiva". Os trocos passaram, pelo menos ali, a ser um bem precioso que nunca, nunca se pode dispensar a um forasteiro. Nem para tabaco, no Jardim do Tabaco.

Mal entrei no restaurante fui logo ignorado, embora isso já seja normal. Mas a minha mulher também foi ignorada. Isso é que já não é normal e é grave, por ser uma tarefa quase impossível. E ficámos ali aqueles 5 minutos à porta do restaurante, à espera que nos venham buscar, a apanhar bonés. E não há nada pior do que ficar parado à entrada de um restaurante a ver passar os empregados como se fossemos invisíveis. E ai de nós que interrompamos a actividade deles.

Lá conseguimos arranjar mesa. O espaço não é desagradável, mas grande demais para o meu gosto. Pelo menos para a ideia que eu faria do tão afamado Xico's. Esperava um lugar mais "cosy". Mas talvez o erro aí tenha sido meu. Talvez o Xico queira mesmo ter feito uma espécie de ambiente Portugália/cervejaria, e eu não me tenha percebido. Guiei-me pelos preços, e esses não eram de cervejaria...Havia um candeeiro muito bonito por cima da nossa mesa. E a vista é bonita. Só que o mal está feito a partida ou, neste caso, à chegada. O Jardim do Tabaco não é jardim nenhum, é mais um cemitério, o jardim dos mortos-vivos. E fica-se logo desmotivado.

Já sentados e pedidos, tivemos tempo para olhar em volta. O cenário não era o melhor. Toalhas de papel (bem sei que talvez a intenção tenha sido essa, mas não gosto de toalhas de papel, para o tipo de lugar que esperava, o que hei de fazer) muito barulho, copos mal lavados, embaciados de detergente, panos molhados no balcão, empregadas desbarrigadas e com ar sofredor, a correr de um lado para outro. Gosto de empregados de retsaurante não profissionais, torna-os mais próximos e calorosos. Mas estas eram demasiado não profissionais. Não posso dizer que tenha sido agradável. Mas eram simpáticas. Apesar de não me quererem dar trocos...para o tabaco. Dava a sensação que tinha faltado gente ao trabalho naquele dia. O pior é que não me parece ser esse o caso.

Com esta recepção, a única esperança estava na comida. Mas, apesar de ser a última a morrer, como se diz, morreu mesmo. Não me mal-interpretem. Não estava má. O bacalhau, com crosta (meio seca) de broa e coentros, estava fresco e salgado q.b.. O bife à Café Paris também não estava mal cozinhado, apesar da carne ser um bocado borrachosa, e do molho, apesar de saboroso, fazer lembrar o da Brasserie de l'Entrecote, mas em imitação. E aí é que está, é que só não estava mau. Tudo morno, à "prato do dia feito de manhã para sair mais rápido". Não deu, de todo, para compensar a experiência.

Pode ser uma questão de gosto, mas deste eu não gosto. Não fica na minha memória, pelo menos no bom sentido.